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A comunicação comunitária no enfrentamento da pandemia de COVID-19

Essas eram perguntas que a profissional  se fazia quando terminava de assistir ao jornal. Ela entendia que não estavam respondidas para essas pessoas. Desse modo, considerando o incômodo com essas perguntas, nasceu a iniciativa de criar o jornal ambulante chamado “Cê viu isso?”. O propósito é que a comunidade da Pedreira Prado Lopes forneça informação voltada para a própria comunidade e fornecer assessoria técnica para ensinar as pessoas a produzirem notícias, que vão ter, em primeiro momento, o foco na pandemia. Elida destaca que a comunicação comunitária buscar aliar a nossa vida às demandas de cidadania e participação popular, e enfatizar os problemas que colocam em cheque o nosso papel como cidadão na busca gerenciar informações e soluções para a realidade da própria comunidade.

Nesse contexto, considerando as circunstâncias  sanitárias, econômicas e sociais atuais na comunidade, nasce o veículo de comunicação que circula pela periferia, Cê Viu isso? Os mais pobres são impactados de forma diferente pela pandemia. Na Pedreira Prado Lopes, em Belo Horizonte, a realidade não é de isolamento social: comércio aberto, gente nas ruas sem máscaras, eventos sociais e milhares de pessoas saindo diariamente para ganhar o pão. Dentro de casa, famílias vivem aglomeradas em poucos cômodos. Isso sem falar nas pessoas em situação de rua e dependência química perambulando na área conhecida como cracolândia. Para as lideranças comunitárias locais, além de água e sabão é preciso informação. Isso porque as orientações sobre a pandemia, veiculadas pelo poder público e imprensa, quase sempre ignoram as circunstâncias que vivem essas pessoas. Muitos nem tem casa. Outros, dormem amontoados. Quase todos são vítimas de notícias falsas disseminadas mais facilmente em grupos com menos educação formal e digital. Por isso, boa parte dos cuidados não são tomados pelos mais de 9 mil moradores da região. Com isso, o vírus circula mais livremente.  

A comunidade da Pedreira Prado Lopes é conhecida pelos altos índices de criminalidade e pobreza. Um estudo realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte apontou a Pedreira Prado Lopes como um dos lugares de mais baixa renda na cidade. A situação melhorou um pouco, principalmente a partir de intervenções do Projeto Vila Viva,  que asfaltou várias ruas e construiu um conjunto habitacional no local.

Com objetivo de organizar/estruturar a iniciativa, a jornalista, junto a lideranças comunitárias, teve reuniões com a comunidade e descobriu que as pessoas queriam ter mais acesso a informações, e que eles queriam estar envolvidos nas discussões sobre o ambiente que os cerca. O projeto atende uma demanda popular de mobilizar a informação a serviço comunitário. “Eu acredito que, com esse conceito do boca a boca, de um contando para o outro, com o auxílio das redes sociais, nós vamos conseguir envolver as pessoas”, explicou Elida.

A iniciativa ainda se encontra na etapa de captação de recursos. O objetivo é remunerar as pessoas através de bolsas para os moradores da comunidade, para que eles mesmos consigam apurar e produzir as notícias. Para o projeto poder começar de vez, a jornalista criou uma vaquinha on-line a fim de que as pessoas tenham canais para ajuda com doações. Nesse orçamento, a prioridade é ter pelo menos três colaboradores pagando as bolsas mensais para eles e pagar o carro de som. A ideia é tornar esse um projeto piloto para outras periferias e convocar também empresas para participarem e poder público, caso tenham interesse, mas mantendo a independência e destacando o protagonismo da comunidade. 

O jornal vai ser pequeno, com duração entre cinco e dez minutos e vai ser veiculado em carro de som ou qualquer outro som.  “A ideia é que ele esteja nos becos mesmo das favelas”, ressalta Elida. O projeto tem a intenção de instrumentalizar os moradores da própria comunidade para produzirem conteúdo em que eles estejam representados, e, à medida que eles vão apurando e produzindo as notícias, eles também estarão trabalhando a própria identidade e colocando sua própria ideia do mundo. A ideia é gerar um grande convite para toda sociedade e fortalecer a ampliação das vozes da própria comunidade. A inciativa já conta com o apoio da Sociedade Mineira de Infectologia. No jornal vai ser criado uma Coluna chamada de “E aí doutor?”, na qual as pessoas poderão mandar perguntas para que sejam respondidas pelos infectologistas. Mas a ideia da iniciativa na sua essência, é que possa instrumentalizar moradores da Periferia a produzir conteúdo em que eles estejam representados. Envolve a participação ativa horizontal na produção, emissão e na recepção de conteúdo do cidadão, portanto, deve se submeter às suas demandas.

As ações comunicacionais empreendidas pela iniciativa encontram-se na plataforma  no Facebook para divulgação:   Com objetivo de fazer com que a informação sobre a Covid 19 circule em cada beco, é fundamental envolver a comunidade em toda a cadeia da produção de notícias sobre os impactos da pandemia e integrar para conscientizar e propor caminhos possíveis, gerando renda e criando uma rede organizada de mobilização social. Desse modo, as ações comunicacionais da iniciativa estão caracterizadas da seguinte forma: jornalistas e os moradores produzirão o jornal popular de 10 minutos, veiculado em carro de som, moto e até bicicleta pelas ruas e becos da comunidade. Além de tratar de modo mais específico as ações para o enfrentamento dos efeitos do Covid-19, a ideia é fomentar os saberes e cultura locais, além de possíveis projetos comunitários. Gradualmente, a intenção é fazer com que os envolvidos tenham condições de conduzirem sozinhos as ações, além de alterá-las para fazê-las crescer e prosperar.

Sabe-se que na comunicação popular, alternativa ou comunitária, mais importante que a produção feita a partir do uso dos meios são as relações que os sujeitos/atores sociais estabelecem nessa construção. O diálogo, a comunicação, a livre expressão de ideias, as formas de participação, a inclusão dos elementos, bem como a valorização das identidades sociais são elementos significativos e expressivos nesse processo.  O que qualifica uma comunicação como popular deve ser sua inserção num contexto alternativo, diferenciado do massivo, voltado para a potencialização de suas ações. 

Ao caracterizar a participação popular nas ações comunicacionais, a própria comunidade foi desenhando o que deseja; por exemplo, a apresentadora do jornal é uma Educadora social do bairro da Pedreira Prado Lopes. Ela tem mobilizando as pessoas com a construção de um grupo de WhatsApp, pois são experiências com base em uma nova visão do produto comunicacional, a qual, muitas vezes, valoriza a participação do indivíduo em detrimento do aprimoramento técnico, mesmo porque os equipamentos atuais possuem uma facilidade de operacionalização que compensa o desconhecimento especifico do correto manuseio. As iniciativas são voltadas, inicialmente, à pandemia do coronavírus. Será uma equipe técnica multidisciplinar com a missão de 'informar a ação' de controle da doença e sobrevivência econômica possível segundo as peculiaridades dos moradores da Pedreira Prado Lopes.

O objetivo é fazer tudo respeitando as necessidades sanitárias, porque a comunidade não pode pensar em um jornal para falar sobre a situação social e sobre a mudança de vida que a comunidade precisa ou em relação à pandemia, é colocar todo mundo na rua. As ações irão respeitar as decisões sanitárias de saúde e criando alternativas, para depois, em segundo momento, se possa criar iniciativas  de formação para a comunidade, como, por exemplo, construir projetos que tragam mais renda e mais qualificação para as pessoas. A participação popular nas experiências mais avançadas de comunicação comunitária representa um progresso significativo na democracia comunicacional. Ela é parte essencial das organizações populares, porque pode ser constituir na diferença que ajuda a ampliar o exercício da cidadania.