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O Mercado Sul Vive e a perspectiva da emancipação dos indivíduos

Na Ecofeira tem de tudo:
de artesanato a plantas medicinais 
                         
Texto e fotos: Andreia Morais
Quem passa na Avenida Samdu, mais precisamente nas proximidades do endereço QSB 12/13 de Taguatinga Sul, nem sempre se atenta para a existência de um pequeno conjunto de blocos coloridos quase à margem da via. A construção não se trata apenas de um agrupamento de lojas e casas unidas que, uma ao lado da outra, formam um corredor de cerca de 200 metros de comprimento, mas também de um local que emana cultura e convivência comunitária que é chamado carinhosamente pelos frequentadores de Beco Cultural.
O endereço abriga em um só lugar: teatro, oficina de artesanato, ateliês de costura e de instrumentos musicais e até um Bicicentro para democratizar o acesso a bicicletas. Chamado de “Mercado Sul Vive!” o movimento que tomou corpo entre os anos de 2011 e 2015, tem suas raízes históricas em tempos muito mais remotos, antes mesmo da inauguração de Brasília quando, ainda na década de 50, se tornou um dos primeiros centros comerciais e de lazer do DF.
É importante também ressaltar que, enquanto um coletivo cultural, o Mercado Sul Vive mantém relação direta com seu território, tendo o direito à cidade com um dos seus projetos de militância. Isso também se dá pelo histórico do coletivo: em 2015, o grupo ocupou espaços que estavam ociosos no beco, tais como lojas abandonadas, que vinham ao longo de mais de 10 anos afetando a segurança e a saúde física, social, ambiental e cultural da comunidade, transformando, o que era apenas um território abandonado em espaço de resistência.
A comunicação utilizada pelo movimento é, desde o início, um dos pontos fundamentais na experiência do coletivo. Ela é exercida nas mais diferentes maneiras, sejam elas na forma de intervenções urbanas tais como grafites, lixeiras, composteiras, hortas; em eventos como festas ou feiras; na rádio livre usada pela comunidade ou simplesmente na forma de diálogo, que é, para o ativista Abder Paz, 33 anos, uma “forma trabalhar a comunicação na perspectiva da emancipação dos indivíduos”. Em resumo, a comunicação no Mercado Sul Vive é elemento fundamental no processo de ressignificação do espaço comunitário. Importante também ressaltar que a comunidade Mercado Sul Vive opta por não fazer uma estrutura ou hierarquia: a gestão é horizontal, mas muito bem organizada.
Outro elemento de experiência comunicacional do Mercado Sul Vive é a chegada do Estúdio Gunga ao coletivo. A Gunga é uma empresa colaborativa de comunicação e design que está no Beco desde 2008. Artistas, pesquisadores, videomakers, designers, jornalistas e programadores fazem parte da equipe que, segundo o site da empresa, são profissionais que compartilham valores da cultura livre e da economia solidária. A Gunga é também um polo de educação e produção da cultura livre digital, pois além de trabalhar apenas com softwares livres, expandem tais conhecimentos nas redes de comunicação do Coletivo.
Em suas ações, o coletivo busca o fortalecimento das pessoas da comunidade, pois são elas que fortalecem o cotidiano do Mercado Sul Vive. E essas ações são reproduzidas em seus meios de comunicação, seja na internet ou atos culturais e cotidianos. Um exemplo dessas ações é a EcoFeira que começou em 2013. Ela é uma feira organizada que acontece nas ruas e estacionamento do Beco e que se transforma em um espaço comunitário de exposição, troca e venda de produtos e serviços que segue princípios ecológicos, da pedagogia da autonomia e da economia solidária. A feira é também um lugar de convívio, diálogo, pesquisa, comunicação livre, reflexão, provocação e arte. Outro projeto do coletivo é o Becomposto. A ação é uma prática comunitária impulsionada pelo desafio de desenvolver tecnologias e fomentar diálogos na busca do bem viver urbano, construindo relações prósperas entre seres humanos, animais e plantas no meio da cidade.
Segundo o site, um dos princípios do projeto é a Comunicação Comunitária: “para que os saberes possam ser difundidos, é fundamental uma esfera livre e horizontal de comunicação. Uma espécie de uma esfera pública de comunicação, sem monopólios e cartéis, sem censuras. Usando as tecnologias de informação e comunicação a partir de uma filosofia de liberdade, são experimentados diferentes canais de comunicação: sites, blogs, rádios livres”. Por fim, cabe ressaltar que o pilar que sustenta a comunicação na comunidade Mercado Sul Vive: “Uma educação livre requer uma comunicação livre”. É assim que um conjunto de lojas e casas unidas em Taguatinga sul deixa de ser apenas um território para ser um lugar libertário.

Entrevista com Abder Paz

1. Fale um pouco sobre você, como descobriu o coletivo e como começou a trabalhar com a comunicação do Mercado Sul Vive?

Meu nome é Abder Paz, sou mímico, ator, ativista, “artevista”, produtor cultural, produtor audiovisual, videomaker. São várias as funções que eu aprendi e venho desenvolvendo ao decorrer da vida e principalmente desde que eu cheguei ao Mercado Sul. Eu estou no projeto há aproximadamente 13 anos e cheguei aqui por meio da pesquisa da cultura popular, da cultura brasileira, das culturas tradicionais.

Foi a partir da minha chegada ao Mercado Sul que eu comecei também a conhecer um pouco do que era a cultura digital, por meio de um programa chamado Cultura Viva que falava sobre Software livre, comunicação comunitária e outros aspectos que eram muito fortes no universo brasileiro e aqui no Mercado Sul (programa que na época estava ligado ao Ministério da Cultura). E a partir desse primeiro contato eu comecei então a entrar no mundo audiovisual, de produção de conteúdo, além do trabalho que eu já desenvolvia como mímico e como ator.

2. Qual foi é a ideia principal quando se fala de uma comunicação realizada pelos participantes do Mercado Sul Vive?

O Mercado Sul tem uma forma de se comunicar muito diferente, principalmente porque a comunicação do Mercado Sul sempre se deu no mesmo território e a partir do contato, da vivência e do corpo a corpo, tirando esse período de Pandemia, claro. O Mercado Sul se difunde a partir daí. Por ser um espaço que, além de ser um ambiente de ofício, de trabalho no dia-a-dia, realiza muitos eventos, muitas atividades, muitos encontros, muitas rodas de conversa, se tornou o lugar onde a gente de melhor forma se comunicou.


3. Existe da equipe de comunicação do coletivo Mercado Sul Vive? E qual seria a estrutura? Quantos participantes, etc.
O Mercado Sul funciona de maneira autônoma e horizontal, são vários fluxos por muitos anos e a cada momento tem pessoas que estão mais próximas e outras que estão mais distantes, mas a organização da comunicação do Mercado Sul é sempre muito orgânica, sempre por demanda e depende muito da disponibilidade das pessoas. Sempre tem pessoa que tem mais situação, adaptação, mais ou menos experiente e isso vai se equilibrando de acordo com a caminhada.

4. Como está a comunicação com a comunidade durante tempos da pandemia?
Sobre comunidade a gente sempre brinca que a comunidade somos nós, a comunidade vulnerável, não na linha geral de vulnerabilidade porque eu não gosto muito dessa palavra, mas que está vulnerável porque é uma comunidade em que boa parte dela é artista. Mas no Mercado Sul tem outros ofícios que não são apenas os ligados necessariamente à cultura, ou como ela é conhecida. O diálogo com a comunidade tem sempre uma linha tênue, claro, porque parte da comunidade, uma parte pequena, ainda é conservadora, ainda tem princípios diferentes talvez dos nossos. Aí os momentos de tensões a gente diminui por meio do diálogo, da conversa, da festa, esse é o nosso caminho.

5. Existe uma estratégia para alcance e diálogo com a comunidade?

A estratégia que nós temos de diálogo com a comunidade é sempre o corpo a corpo, o cuidado, o olhar nos olhos, é ver e se rever. Essa é sempre a nossa estratégia. É de alguma forma trabalhar a comunicação na perspectiva da emancipação dos indivíduos para que eles possam ter condições básicas e acesso.

6. O que deu certo e o que não deu na comunicação entre o coletivo MSV e a comunidade?

O que deu certo é a resistência do Mercado Sul. A comunicação como ferramenta de diálogo. O que deu certo é o avanço nas redes sociais, acho que isso tem sido sempre muito importante, apesar das ressalvas com as redes sociais como Youtube, o Facebook e o Instagram que são redes privadas que têm seus interesses, suas formas e seus algoritmos, inclusive de programação. Apesar disso tudo, a gente conseguiu dar certo e estar crescendo nas redes. O que deu errado é a gente ainda não ter conseguido construír as nossas próprias redes, nossos próprios lugares, nossos próprios caminhos de comunicação de redes sociais.

7. Qual o processo que mobiliza as pessoas que fazem parte do coletivo, mesmo em tempos de pandemia?

Hoje, em meio do período de pandemia, a gente está se reinventando. De alguma forma, o Mercado Sul está produzindo muito conteúdo, muita live, muito documentário, muitos estudos e novas convergências.

 

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Referências:


MERCADO SUL VIVE (Brasília (Df)). Mercado Sul Vive: O Beco de portas abertas: wiki mercado sul. Wiki Mercado Sul. 2018. Disponível aqui. Acesso em: 05 out. 2020.


RODRIGUES, Rodrigo de Oliveira; SILVA, Cezar Augusto Camilo. A comunicação no “mercado sul vive!”, Taguatinga – DF: observação e análise da estética de comunicação visual local e produção de documentário sobre o movimento de revitalização cultural comunitário. Brasília: Centro Universitário de Brasília (Uniceub), 2018. 38 p. Disponível aqui. Acesso em: 05 out. 2020.


RAMOS, Jade Oliveira. Território e Coletivos Culturais: resistências e esperanças na dinâmica territorial do estudo de caso Mercado Sul em Taguatinga. 2018. 142 f. TCC (Graduação) - Curso de Geografia, Departamento de Geografia, Universidade de Brasília (Unb), Brasília, 2018. Disponível aqui. Acesso em: 05 out. 2020.