Erro

[OSYouTube] Alledia framework not found

O Jornal Sem Terra, a luta pela reforma agrária e a divulgação do MST

msttt

Histórico e contextualização:

O Jornal Sem Terra é um projeto de comunicação desenvolvido e gerenciado por membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A publicação teve sua origem no dia 15 de maio de 1981, na Encruzilhada Natalino, uma das primeiras ocupações do Movimento no Rio Grande do Sul. A primeira tarefa do que viria a ser o jornal, foi dar visibilidade às lutas dos trabalhadores militantes que se encontravam isolados devido a ações da polícia,
Nos seus primeiros momentos, o chamado de boletim Sem Terra era uma coletânea de cartas escritas pelos trabalhadores das ocupações para simpatizantes em Porto Alegre (RS) expondo suas exigências e necessidades. Nos quatro anos que seguiram a primeira publicação, o jornal ainda tinha um caráter regional, era feito em mimeógrafos e servia como forma de comunicação entre as ocupações, como fonte de renda e, principalmente, como forma de divulgação dos ideais do MST, que nessa época ainda estava começando a se consolidar.

Em 1985, o boletim passa a ser chamado oficialmente de Jornal Sem Terra e muda um pouco suas características. Seus textos começam a tratar mais diretamente de temas como reforma agrária e concentração de terras no Brasil. Nessa época, o jornal se firma como o principal material para o trabalho de base do Movimento, que passava a nacionalizar sua luta.

Em entrevista concedida à página oficial do movimento, Luiz Marin, membro da Juventude do MST, diz que o jornal foi fundamental no processo de comunicação entre os membros e também uma parte importante da identificação daquele grupo. “Era um jornal produzido por nós e para nós, uma coisa muito forte. O Jornal Sem Terra era a voz da militância em cada canto em que ele chegasse [...] Aquelas páginas eram místicas para todo mundo e aparecer no Jornal Sem Terra era muito importante’’, lembrou o jovem na celebração dos 39 anos do jornal.

Hoje em dia, quase 40 anos depois de sua criação, o Jornal é produzido em São Paulo e conta com uma infraestrutura muito maior. Sua distribuição por todo o país é peça importante para a comunicação interna e externa do MST e representa uma fonte de renda importante. Seus textos incluem manifestos, declarações, artigos, notícias e comunicados entre assentamentos espalhados por todo o país que tem como objetivo fortalecer a luta agrária no Brasil e disseminar os ideais e as histórias de um dos maiores movimentos sociais da América Latina.

Organização e Estrutura:

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra está organizado em grupos de famílias que, por meio de assembleias, elegem seus coordenadores regionais, baseados nas necessidades de cada área. A mesma lógica se aplica no âmbito regional, estadual e nacional onde os coordenadores de cada assentamento elegem seus representantes para o congresso nacional do movimento, a entidade máxima de decisão.

Além dos congressos e coordenadores, as famílias se organizam em dezena grupos que focam em atividades específicas, como por exemplo a frente de massa, responsável pelo trabalho de base, a frente de educação, que garante o acesso ao ensino nos acampamentos, e a frente de comunicação, onde está organizado, entre outros projetos, o Jornal Sem Terra, responsável por construir os próprios meios de comunicação do Movimento.

Mesmo se tratando de um movimento massivo, o MST não conta com uma liderança única, como um presidente ou coordenador chefe, mas escolhe dividir sua liderança entre os coordenadores regionais e lideranças dos coletivos e frentes, que se reúnem em encontros e congressos onde decidem os rumos gerais do movimento.

Os participantes do MST são as famílias envolvidas na luta pela reforma agrária no Brasil e, por isso, seus militantes acabam se misturando a outros movimentos sociais do país, como o Movimento Indígena, o Movimento Negro e o Movimento Sindical, por exemplo. Além dos militantes, o Movimento conta com o apoio de colaboradores urbanos, entidades religiosas e organizações não governamentais. Desde os anos 1980, a Comissão Pastoral da Terra, braço da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros responsável pelos projetos de caridade da instituição, tem sido uma das mais vocais e mais importantes apoiadoras do MST ao contribuir com doações de terras e alimentos e servir de mediador entre os militantes e o Estado.

Ações e Processos Comunicacionais:

O Jornal Sem Terra é veiculado em publicações mensais de 16 páginas coloridas, contendo fotos, artigos, manifestos e materiais didáticos, podendo conter também encartes adicionais, que abordam temas mais específicos, como o próprio aniversário de 30 anos do jornal em 2011. O jornal em si é distribuído mediante pagamento de assinaturas anuais, como forma de financiamento do Movimento, ou gratuitamente, como forma de trabalho de massa e de formação política.
O conteúdo dos jornais trata de temas diversos, como feriados, pautas educacionais como a importância da leitura, campanhas de vacinação, eventos culturais, além de abordar as pautas essenciais à formação política do Movimento, como a reforma agrária, direito à terra, notícias sobre assentamento e coordenação de ações sociais. Mais do que um jornal político panfletário, o Jornal Sem Terra é um projeto de comunicação própria dos militantes que foca nos interesses cotidianos dos militantes e por isso tem tanto apoio das famílias nos diversos assentamentos pelo país.

A coordenação do jornal é realizada pela frente de comunicação, que é composta por membros de diversos assentamentos espalhados pelo país e conta também com o apoio de acadêmicos e jornalistas simpatizantes, que escrevem artigos que são incluídos no corpo do jornal.

Uma das principais dificuldades do Jornal Sem Terra tem sido a sua ampliação para outros setores de comunicação. Com participação muito tímida em outros meios que não o impresso, a frente de comunicação mostra querer expandir a divulgação, mas acaba esbarrando nas próprias limitações impostas pela organização do movimento. No entanto, com o crescimento da participação do MST nas redes sociais, o Jornal Sem Terra tem ganhado nova força, mesmo que ainda preso na forma impressa, com a divulgação de algumas edições digitalizadas nas páginas do Movimento.

Durante a pandemia de COVID-19, o Jornal Sem Terra assumiu mais um papel dentro dos assentamentos: o de informar os militantes a respeito dos andamentos da pandemia e seus efeitos na população do campo no Brasil. O Jornal foi o responsável por divulgar os cuidados a serem tomados e as ações do MST de apoio a outros grupos durante a pandemia, além de cobrar do poder público uma ação mais inclusiva de combate ao coronavírus.

Fontes:

TAVARES, Joana P. C. De Boletim a Jornal Sem Terra: Histórias, práticas em papel na constituição do MST. Disponível aqui.

OLIVEIRA FILHA, E. A. Jornal Sem Terra: uma avaliação do principal instrumento de comunicação do MST. Disponível aqui

ALC NTARA, F. Jornal Sem Terra completa 39 anos, assentadas relembram trajetória Há 38 anos nascia o Jornal Sem Terra